Afinal, o que você quer?

Eu sei que você quer voltar para casa assim que o outono der os primeiros sinais de que chegou. Você quer sentir a brisa tornando-se mais fria a cada manhã. Quer ver a neblina sobre as folhas já caídas ao chão. Quer ver a fumacinha saindo da boca. Quer ir aumentando a camada de roupas a cada dia. Colocando uma coberta à mais na cama a cada noite. As paredes tornando-se geladas, o piso mais frio, o inverno chegando aos poucos. Você quer sentar-se de meias em frente à lareira, sentir o fogo te aquecendo aos poucos.  Quer ver as faíscas que saltam e parecem querer te atingir, como se brincassem, como se machucassem. Quer ver o fogo diminuindo até resumir-se à restos de madeira e cinzas. Sentir o corpo esfriar-se como se sentisse falto do abraço que há pouco o acolhia. O calor produzido parece um abraço. Mas o corpo logo acostuma-se a estar sozinho novamente. Você abre a janela e senta no parapeito. Você sente o vento cortante de tão frio e aos poucos ele deixa suas bochechas rosadas, assim como as suas mãos. Você as esconde sob os bolsos do casaco e percebe que há alguma coisa ali. Olha em frente e observa os telhados e chaminés das casas. O sol se poe por detrás de algumas árvores no final da rua. Parece tão perto, parece tão tocável. Você não é cético a ponto de acreditar apenas no que se pode tocar, mas nesse momento o sol parece mais real do que nunca. Diferente do ambiente que ele criou. O laranja esvai-se em meio a tons de púrpura e rosa, um degradê que termina no azul da noite que começa. E por mais lindo que seja o que está diante dos seus olhos, e por mais que ali seja o seu lugar, eu sei, você não quer estar ali. Quando estamos sozinhos, nunca queremos estar aonde estamos, porque lar é onde está o coração, e o seu não está ali. Você quer estar em qualquer lugar em que sinta o seu corpo aquecido não por labaredas e lãs e tecidos. Você quer braços, você quer pele. Então você tira o papel que estava em seu bolso e o abre. Não que você precise ler para saber o que está escrito, já está tudo decorado, você lê para suprir a falta de quem o escreveu. Dobra o papel novamente e o aperta junto ao peito. Você repara. Não há lugar no mundo que haja um céu mais estrelado que este.

Escrevi faz tempo, postei porque sim.

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3 Respostas to “Afinal, o que você quer?”

  1. Gabriel Montemór Says:

    Simplesmente Perfeito.

  2. Tweets that mention Afinal, o que você quer? « Adoçando ♥ -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Gabriel Montemór, Gabriel Lobo. Gabriel Lobo said: https://adocando.wordpress.com/2011/01/22/afinal-o-que-voc-quer/ […]

  3. Leticia Passos Says:

    eu sou apaixonada por esse texto *-*

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